CRÔNICAS DO COTIDIANO
ANÉIS...
-Harpyja-
Já se passou mais de ano desde quando eu só suportava o de menos e a ausência do mais. Mas prenunciava desejos intuitivos do após, como se fosse assim uma lembrança ainda não acontecida, espécie de certeza de muitos hojes. Assim estava eu até que a luz criasse novas transparências. Tua imagem se sobrepôs à dela e ganhou contornos próprios, desafiantes, ainda que clandestinos. Teu sorriso pareceu-se com gritos estridentes de socorro que depois verifiquei serem realmente assim, e por isso mesmo um desfiar de choros convulsivos. Perguntei por que choravas e me mostraste uma aliança partida que me lembrou outra que eu próprio usara em tempos idos. Quando te descrevi, porém, meu novo anel, tu me disseste que pouco importava, acatando a realidade com que me apresentei todo sincero em cuidados de não te magoar. Disseste que de mágoas estarias refeita se a minha vontade te aceitasse nem que fosse apenas para a satisfação de desejos aflorados e ardentes. Confuso, não me neguei, embora olhasse receoso para o meu novo anel. Notaste o gesto, e num relance de instinto escondeste meus dedos sob tuas mãos num toque morno e suave como a dizer que aquele novo anel não seria molestado, embora assim o desejasses do fundo da tua alma que dizias profundamente ferida. No silêncio que se formou entre nós, tu te despiste, retirando com muita calma e determinação cada peça de roupa que jogaste aos meus pés como numa entrega suplicante. Deslizaste o corpo nu para baixo dos lençóis à espera do meu agir seguinte, que não poderia ser outro senão o de retirá-los e dedicar-me a explorar tuas entranhas, tanto as do corpo quanto as da alma. Entretanto, sem atinar por que, recobri os nossos corpos numa atitude inusitada de pudor. E retirei da minha mão aquele anel, pondo-o num local seguro, fora do alcance dos meus olhares e dos teus, de modo que, embora sentindo a presença dele, isso não me perturbasse, mesmo sabendo eu que isso nada te importava, pois há muito desprezaras, tristemente, o sentido de valor do que representam os anéis. Foi quando, recobrados os sentidos, percebi teus olhos marejados de muitas lágrimas furtivas...
Recife 10/9/99
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MEU JARDIM SECRETO
-Harpyja-
Risos, fragrâncias de Chanel 5 a temperar um ar de erotismo e ELA que passeia descalça, sinuosa e displicente num vestido de rendas brancas e delicadas que pouco lhe encobrem a nudez abrasada da noite passada. Sua silhueta diáfana atravessa os tênues raios de sol refletidos em matizes de ouro e prata no singelo entrelaçado de margaridas que traz como coroa à roda da cabeça. Folhas tenras de papoulas vermelhas e buganvílias azuis movem-se ao livre querer da brisa e se debruçam oscilantes sobre os lilazes que desabrocham nos canteiros do meu pequeno jardim secreto visitado por colibris verdes e azuis, abelhas à cata de néctar e borboletas de asas douradas adejando sobre a ramada espessa do Pau-Brasil entornada para baixo a quase tocar o solo. A refeição de frutas acompanhada de champanhe num balde de gelo sobre a mesinha de ferro de dois lugares, pintada de branco. Ao longe, na surdina, ecoam as "Quatro Estações" de Vivaldi e melodias de Enya. Duas taças cheias transbordam de espuma. Brindamos à lascívia da noite passada, comemos e bebemos à farta. ELA suspira e arrisca um olhar distante. Eu reflito sobre lembranças. Reúno estilhaços de memórias de gentes e lugares. Lembro-me da viagem noturna de comboio a cruzar brumas frias de fim de inverno em Portugal, em busca do aconchego da prima querida que tanto bem me faz nas poucas vezes que a tenho com sua alma antiga a me dar afagos e a lançar bondosas reprimendas quanto aos perigos amorosos que teimo em incidir na minha vida. Comboios... Navios... Aviões... África! Dakar. Eu menino de passagem, as mãos unidas à imaginada segurança que me dava a mãe que ia posar de modelo para uma marca francesa de bebidas num tempo em que ser modelo era pouco mais de um sonho amadorista. Dakar de muros brancos muito alvos, a mesquita e o minarete em frente a confrontar a velha fortaleza dos escravos na ilha ao longe, guardiã de registros horripilantes de um passado ainda presente. Brasília, três horas da madrugada. Da janela do hotel contemplo a Catedral onde, num dia já distante, vivenciei um fantástico transporte de alma que me levou a dimensões incompreensíveis, sob a réstia de sol que se insinuava da cúpula ao centro da minha cabeça. Um compromisso nasceu então, de visitar o templo todas as vezes que a Brasília for e prostrar-me em oração, não necessariamente uma oração religiosa, mas sempre no exato local onde me senti alçado. Nova Iorque, outono, esquilos furtivos a correr no Central Park entre folhas secas enquanto noivos coreanos se casavam ao ar livre. Chile, Puerto Montt e Punta Arenas, de visões dantescas de icebergs e cordilheiras assombrosas sobre os quais os condores pairam em vôos cheios de mistério. Funchal, Madeira, eu adolescente abraçado a Sirena, a namoradinha pouco mais do que criança, contemplo no convés de um navio o afastar-se da cidade iluminada, a brilhar ao modo de pérola minguante que flutuasse como luz intrusa na escuridão do mar noturno. Ao final da viagem nunca mais soube de Sirena! Mas meu grito mental ainda ecoa - onde andará Sirena? Onde estará Sirena? Que foi feito do frescor juvenil de Sirena que tanto me preenchia o peito? Londres, Paris, Lisboa com o Tejo visto do alto como garganta colossal a engolir oceanos. Milão, Verona, Veneza, onde gelei as mãos no verde-escuro do Adriático. O azul do Mediterrâneo. As ondas revoltas do Canal da Mancha. Viña del Mar de pelicanos e gaivotas a caçar salmões nas praias vulcânicas do Chile. Enfim retorno à minha cidade natal, terra muito amada onde vislumbro um campanário amarelo iluminado na madrugada, tenebroso e belo como um farol de almas. De repente chuvas fortes lavam a manhã do domingo e caem sobre nós. Não me importo. ELA se joga ao meu colo. Deixamo-nos ficar à pequena mesa de ferro do jardim onde restam duas taças transbordantes de lembranças.
Recife 7/9/03
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QUANDO EU ME ENCANTAR
-Harpyja-
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Meu filho Paulo. Neste dois de maio do teu aniversário, eu te deixo um testamento prematuro.
Não! Não te assustes! Não é premonição! Apenas um cadinho de lembranças a futuro, bem remoto ainda, garanto! Enfim...
Quando eu me encantar, se por aqui por este mundo ainda estiveres, não chores. Melhor rires. Sim! Ri da vida. Porque mais cedo ou mais tarde ela terá rido de ti, não tenhas dúvida. E então, certamente que terás tido de te rires de ti mesmo. É bom curativo.
Quando eu me encantar, se puderes esquece-me, liberta-te da minha memória. Eu a levarei comigo, não te preocupes. Mas se te lembrares de mim, recorda apenas a tua infância comigo. As conversas que tínhamos. Os passeios que dávamos. As fotos que tiramos juntos. Ah! Essas fotos! São tantas e tão poucas... Momentos singelos. Memórias do tempo. Contornos da tua meninice que eu procurei fazer feliz. Se consegui ou não, só tu sabes. Pelo menos, eu tentei.
Quando eu me encantar, não quero pompas nem salamaleques funerários... Gostaria apenas de uma oração nada convencional. Dispenso túmulo vistoso. Enterra-me simplesmente. Basta-me uma cova rasa. Ou, se preferires, manda cremar o ex-meu corpo e espalha as cinzas ao mar num amanhecer bonito de verão, quando o sol estiver bem vermelho, aquele vermelho de sangue molhado de que às vezes te falo.
Quando eu me encantar, não guardes os meus pertences. Dá-os. Assim me libertarás do peso terreno para que eu possa voar muito mais alto. Mas, se quiseres guardar algo de mim, sugiro-te não mais que uma pequena mecha de cabelos, talvez. Entretanto, se for o caso, corta-os agora, enquanto brilham castanhos clareados e viçosos. Não os queiras depois, mortos, esbranquiçados e apáticos, pois nada mais refletirão de mim.
Quando eu me encantar, se for domingo, vai a um parque, dá um passeio por entre as árvores à tardinha e escuta os pássaros. E à noite, olha as estrelas. Se vires o "Cruzeiro", dá atenção à quinta estrela "Intrometida", é aquela que brilha meio deslocada a um lado, um pouco abaixo dos braços da constelação. Pode ser que me revejas ou me ouças, quem sabe? Um "intrometido" no colo das estrelas.
Quando eu me encantar, não precisas visitar os meus despojos. Mas se alguma vez lá fores, nunca o faças nos dias de finados! São dias tristes, que nunca gostei. Espera o fim do ano e, se não te esqueceres, espoca um champanhe qualquer e sopra a espuma. Depois dos brindes, poderás ter a certeza de que eu beberei contigo.
Quando eu me encantar, talvez que alguns amigos e amigas venham te dar pêsames. Aceita. Agradece as mensagens dos ausentes, se as enviarem. São meus poucos amigos e amigas... Será um sinal de que em algum momento, guardaram algo bom de mim. E isso é muito, muito importante!
Quando eu me encantar, se puderes, ouve um disco, de preferência desses de música suave mas alegre. Ou talvez um clássico mais vibrante, o "Adestes Fidelis", por exemplo, ou a "Cavalgada das Walkirias", ou a "9ª" de Beethoven, talvez o "Cravo Bem Temperado"... Ou mesmo nenhum desses, mas um daqueles outros que tu bem conheces - enfim, deixo a escolha ao teu critério dentre os que hoje dizes ser a minha cara. Quem sabe até se eu não te soprarei ao ouvido o que eu queira...
Quando eu me encantar, vai a um cinema e assiste a um filme "romântico", desses "melosos", "açucarados", que fazem chorar de tão "bobos" que são... Ou a um daqueles de viagens no tempo e nas estrelas! Eu estarei viajando ao teu lado, "derretido", "encantado", "abobalhado"...
Quando eu me encantar, vai a uma boa festa, bebe um pouco de boas bebidas e come umas boas comidas - não esqueças o vinho tinto seco! Depois da festa, faze amor com uma mulher - de preferência bela! - com quem te sintas bem. Eu estarei mais vivo do que nunca, serei jovem de novo!
Quando eu me encantar, dá o ombro à tua mãe, se ainda por aí estiver. Eu a terei amado assim meio de repente, numa curva ida do tempo em que procurava esperanças. E nunca te esqueças da tua irmã, que nos chegou mansa como um presente, suave como uma madrugada de verão em busca da certeza de um sol.
Porque, quando eu me encantar, ainda restarei completamente inacabado... Igual aos meus escritos. Tanto melhor que assim seja...
(Recife, 1998)
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SINGELEZAS INFANTIS
-Harpyja-
Herdei do meu pai o gosto pelas estrelas.
Quando menino, levava-me ao maior parque da cidade nas tardes de domingo. Comprava bolas de encher azuis, amarelas e vermelhas, pipocas, guaranás... Às vezes, sanduíche de queijo e algodão doce (nunca fui muito chegado a bombons e
chocolates...) Andava comigo no carrossel, "upa-upa cavalinho", roda gigante, auto-pista...
O "homem do realejo" me fascinava. Verdadeiro saltimbanco, vestia azul-marinho e branco e usava uma cartola preta. Tirava da máquina sons de pianola, cantando "Oh! My Darling Clementine", "La Vie en Rose", "Come Josephine On My Flying Machine" e muitas outras que não lembro. Depois, tirava a sorte numa fita de papel amarelada, envelhecida, toda rabuscada de desenhos que eu achava esquisitos, mas divertidos: bruxas de preto cavalgando vassouras, sóis com chamas avermelhadas a sair ao redor, meias-luas sorridentes, estrelas douradas de vários tamanhos...
Tirávamos retratos preto-e-branco, às vezes coloridos, numa antiga "Zeiss-Ikon". Eu corria, caía e me levantava em treinos prévios de vida. E ria até não poder mais com as palhaçadas dos palhaços, um deles vestido de gorila...
Existia um mini-zoo no parque. Gato-maracajá, papa-mel, macacos-prego, araras, cotias, um lobo-guará... Uma preguiça e dois pavões andavam soltos pelas árvores. Pombos-correio, muitos deles, esvoaçavam e catavam apressados, com jeito de assustados, as pipocas jogadas pela meninada...
O que mais me prendia a atenção era a enorme jaula ocupada por um casal de imensas águias "Harpia", o macho com um "cocar" na cabeça, "semblante" fechado como costumam parecer as águias, mas extremamente amorosas uma com a outra... De vez em quando, abriam suas asas e emitiam "vozes", resumidas em "káu-káus" de várias entonações. Suas próprias palavras. E eu ficava a imaginar o que diriam, um ao outro, aquele casal de "Harpias" que na minha criatividade fantasiosa de criança, eram seres mitológicos, meio "grifos", meio "dragões alados". E ficava a pensar por onde já teriam voado aqueles imensos pássaros...
Meu pai explicava que as águias são seletivas. Em
liberdade, pairam serenas pelos "ares rarefeitos", voam muito alto, sempre para a luz e se orientam pelo sol. Animais nobres, mas também predadores implacáveis. Corpo rápido, vôo certeiro, executores fiéis de um plano destinado a um instinto soberano...
Ao cair da tarde acendiam-se duas fontes luminosas, alternando grandes círculos de luzes verdes, brancas e vermelhas, debaixo da água dos lagos cercados por amuradas baixas de cimento granitado, a servir de banco em todo o redor. Eu já cansado, me deitava e recostava a cabeça no seu colo. Ele me afagava os cabelos e me mostrava as estrelas, Marte, Vênus, tudo para mim eram estrelas... E constelações, o Cruzeiro, com a quinta estrela bruxuleante e atrevida, chamada "Intrometida"...
Outras vezes íamos ao porto. Na minha primeira infância ainda havia linhas regulares de transatlânticos. O que achava mais bonito era o "Vera Cruz", pintado de cores claras, chaminé com duas grandes listas verde-amarelas em homenagem ao Brasil. Passava uma impressão de leveza e alegria. Uma águia dos mares... Nem imaginava que, na adolescência, viajaria nele pela Madeira, Açores e Lisboa...
Naquele tempo, era permitido o acesso aos navios de passageiros. Entrávamos neles. Lá, invariavelmente, nos sentávamos num banco qualquer de um "deck" junto às baleeiras ou na proa, ou nas espreguiçadeiras de uma "promenade". E aí, de novo, eu lhe pedia que me contasse "as histórias das estrelas"..., ou a "vida das águias"...
Assim se passavam horas ao som das águas batendo nos cascos dos navios. Ao fundo, trinados de música de violinos e acordes de piano, rumores e risos de boas conversas, tilintar de coquetéis... De vez em quando, passavam belas mulheres de vestido longo e decotes generosos, alvas, morenas, louras, risonhas, etéreas, saltitantes, à nossa frente... Eu já começava a me interessar por elas, imaginando-as nuas e deitadas, como seriam... Mas naquele tempo, só umas certezas plenas: que tinham belas saliências balouçantes entre os ombros, que eu não tinha, e misteriosas faltas entre as coxas, de coisas que eu tinha... Além de serem lindas e parirem...
Voltávamos para casa a pé, atravessando noites claras e quentes de verão. Ou sob chuva fina, garoa, que emprestava um certo ar de mistério à iluminação que vinha de postes de ferro trabalhado, fincados nas amuradas das pontes da minha cidade, a lembrar antigas gravuras de velhos lampiões que nunca conheci...
Adormecia leve nessas noites. Sonhava com águias e mulheres, envolto e aceso em minhas primeiras solidões conscientes...
HARPYJA
Recife, 2000
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NUM DOMINGO À NOITE...
-Harpyja-
O QUE ELA PENSOU:>
(Ele estava esquisitíssimo, domingo à noite. Calado, sorumbático, rosto inexpressivo, o olhar perdido no espaço. Não me beijou nem enlaçou a minha mão, como faz de costume ao me ver. Tínhamos marcado para ir ao cinema ver uma comédia sobre um casamento grego, porém me atrasei no trânsito engarrafado por conta de uma batida. Por azar, a bateria do celular descarregou, não tenho carregador no carro e não pude avisá-lo. O pior foi que ele esqueceu de comprar os ingressos com antecedência. Quando cheguei ao encontro, a lotação do cinema estava esgotada, porém mesmo que ainda houvesse ingressos, não adiantaria, pois a sessão, que era a última, tinha começado há uns quinze minutos e a bilheteria já estava fechada. Pensei que estivesse enfastiado por conta disso, ou por outra causa qualquer, e tentei animá-lo com uns sorrisos e umas beijocas no rosto, enquanto me enlaçava no seu pescoço. Não adiantou e até notei uma leve rejeição aos meus afagos, pois afastou a cabeça num movimento quase imperceptível. Para completar, manteve os braços caídos ao invés de me abraçar pela cintura, e quando lhe perguntei se estava aborrecido comigo, respondeu com um "não" seco e gutural. Comecei a ficar nervosa. Chamei-o para irmos ao meu apartamento, na certeza de que uma "trepadinha" quebraria aquele gelo. (Afinal de contas, homem só tem sexo na cabeça...). No carro, fiz aquela pergunta que faz toda mulher "me ama?", "me ama?", "me ama?", umas cem vezes. Limitou-se a dar um sorriso do lado da boca que me pareceu irônico e respondeu outros tantos "amo", "amo", "amo", porém num tom enfadado que me deixou à beira de um ataque de histeria tipicamente feminina. Ainda bem que o trânsito estava livre àquela hora e não demoramos no percurso. No elevador, ele não me deu a mínima atenção, não me agarrou, não passou as mãos nos meus peitos, não pegou nos meus mamilos por dentro da blusa e nem olhou minha bunda empinada, refletida no espelho... Com certeza nem ficou de "pau-duro"! Já no apartamento, sentou-se no sofá, porém não se recostou nem tirou os sapatos como de costume. Simplesmente, acendeu o abajur de canto, pegou uma revista antiga e começou a ler. Quase em desespero, resolvi tomar um banho morno. Depois, dei um jeito bem "solto" nos cabelos, borrifei quase meio vidro de perfume por trás das orelhas, no peito, ao redor do umbigo e em outras partes "estratégicas" do corpo, vesti a camisola transparente e a calcinha preta e minúscula que ele tinha comprado de presente numa loja "chic" de Nova Iorque, acho que na "Victoria Secrets" ou "Macy's", sei lá! Já estava tão fora de mim que nem me lembrei desses detalhes! E me apresentei toda "gata" e com trejeitos sensuais na frente dele. Mas qual o quê! Ele só deu uma olhadinha rápida, levantou-se, foi à geladeira, bebeu um copo de água, acendeu um cigarro e foi se debruçar na janela a olhar o mundo. Controlei-me a muito custo e pensei “– Ah! Meu Deus! Homem quando se tranca é pior que cofre de banco!”. Decidi ser mais direta, como se já não estivesse sendo, ali, quase nua e cheirosa a provocá-lo. Abracei-o pelas costas, passei-lhe os braços pela cintura, desapertei-lhe as calças, baixei o fechecler, insinuei minhas mãos por dentro da cueca, alisei sua bunda, peguei um bom tempo nos "ovos" e no "pau"... Enfim, ele “cedeu”, despiu-se e fomos para a cama. Mas só ficou “pronto” depois de muito agrado, e me montou meio sem jeito, quase sem fazer “preliminares”. Demorou mais do que de costume para terminar, embora isso tenha sido bom, pois gozei duas vezes seguidas! Mas quando chegou ao fim, o gozo dele foi assim meio fraquinho e pequeno, nem suspirou muito e não aconteceu ao mesmo tempo que eu, dando a impressão que já tinha gozado um bocado, antes de sair comigo. Além disso, desmontou logo de mim, não me beijou, levantou-se, lavou-se no banheiro, penteou o cabelo e foi logo vestindo a roupa. Para completar, disse que estava maçado e ia embora, pois tinha de acordar cedo no dia seguinte. “ – Pois sim” – pensei eu – “como se eu não soubesse que na segunda feira ele não acorda antes das onze ou meio dia! E ainda não é nem meia noite!”. Ao sair, não me disse nem “tchauzinho”, apenas um “tchau” desmilingüido, não me deu nem um beijo. Já na porta do elevador, nem me acenou, entrou e apertou o botão do térreo na maior pressa para se mandar. Voltei para a cama sentindo-me péssima, um simples pedaço de carne, um objeto descartável jogado no lixo. Nessa noite, não dormi direito. Nos meus “diálogos” com o travesseiro só me ocorria um pensamento: “ – Homem quando fica assim é porque tem ‘outra’ na área! Só pode ser! Ah! Meu Deus! Se eu descubro essa macaca sirigaita...”)
O QUE ELE PENSOU:
Ao voltar para casa, sentiu muita fome, como era comum depois de fazer sexo com ela. E mais a mais que a “Gatona” (como a chamava) estava mais fogosa do que nunca naquela noite. “ – Pôôôxa! Haja tesão pra segurar essa mulher... Haja tesão!...”. Deu um sorriso ao saltar do carro no estacionamento da lanchonete. Pediu dois quibes grandes e uma coca-cola “normal”, para refazer as energias. Depois de comer e beber, suspirou fundo, acendeu um cigarrinho e, enfim alegrado, pensou: “ – Tá certo que fiquei chateado à beça porque meu time perdeu o campeonato e nem deu tempo de ir ao cinema espairecer. Vou ter de agüentar gozação uns três dias no trabalho. Mas em compensação 'dei uma’ pra lá de legal... O ‘pau’ demorou a ‘subir’ mas ela deu um jeito e quando ‘subiu’, valeu! E ainda por cima ela gozou duas vezes... Beleza pura!...” E foi dormir todo lampeiro, um sono pesado sem sonhos. Lá pelas oito horas o telefone tocou. Atendeu estremunhado. Era ela a perguntar em tom de aflição “ – Me ama?” Ele deu uma risada e respondeu: “ – Também, depois de ontem que é que você acha?”... Ela desatou a chorar e desligou. Ele sem entender tentou ligar várias vezes, porém o telefone só dava ocupado. Pensou: " - Vá entender mulher!..." E voltou para a cama para dormir de novo até o meio-dia...
HARPYJA
Recife, 06/12/2002
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SOBRE UM MAR DE DEZEMBRO
-Harpyja-
É noite, é dezembro, faz lua sem nuvens, divisa-se a escuridão do mar, brisas suaves tocam meu rosto, estou aqui no terraço-bar dum restaurante. A meia-surdina, tocam os Beatles e Vinícius - as especialidades musicais alternadas da casa. Interessante mistura de gostos num lugar de exteriores e interiores a
meia-luz, a meio-som, a meia-altura, a meias-cores, a meio-rock, a meio-samba, a gente-meio-discreta, a meio-caminho entre o mar e a avenida principal. Não costumo gostar dos "meios" isso ou aquilo, pois não "são" nem deixam de "ser" - o lugar onde estou é meio-restaurante-meio-bar-meio-'pub' e não chega a ser nada do que meio-se-propõe. Prefiro as ousadias - "ELA" me arrebatou numa tirada de atrevimento. É certo que para Aristóteles a virtude está no meio, proclamou-o há uns bons dois-mil-e-trezentos-e-tantos-anos nas terras longínquas da Macedônia e quem serei eu, afinal, para refutar as médias proporcionais do consagrado sábio de Estagira! Ainda mais que foi professor de Alexandre, o Grande, que aos vinte-e-três anos já tinha conquistado "meio-mundo" conhecido de então. Logo eu que tão minúsculo sou diante dessas eminências de cultura e de conquistas militares! Mas tal virtude-que-está-nos-meios é verdadeira, sim, reconheço - embora não abra mão de certas audácias "inteiras", pois não há "meias-audácias"
e, de qualquer forma, eu gosto-meio-do-lugar-onde-estou, assim mesmo, pelo meio-tom-de-som peculiar, tanto que eu o meio-freqüento, se a isso pode se dizer de alguém que vai de vez em quando a um lugar. Pois é bom não abusar da saúde, e relaxar também, ao menos de vez em quando. E "ELA" está meio-com-vontade-de-tomar-um-martini-meio-doce. E eu estou meio-com-vontade-de-tomar-meia-cerveja-e-meio-whisky e "beliscar" uns petiscos meio-a-meio-de-mexilhões-com-camarões-médios-fritos, mesmo considerando o preço assim-assim-meio-salgado. "Arre-égua"! Ainda bem que na mesa à minha frente um casal jovem se senta e me chama atenção-meia. Ela é de corpo enxuto e alourada. Ele tem a cara e o corpo e a estatura e a cor dos cabelos e o penteado e o "jeito" de James Dean, aquele ator dos anos cinqüenta que fez
dois filmes famosíssimos e depois morreu de desastre de carro. Ele fuma um cigarro atrás do outro - "Camel", vi meio-sem-querer. E toma uma cerveja meio-clara, numa garrafa sem cor - acho que é da marca ou tipo "Cristal". E veste uma jaqueta de couro preta nova-em-folha, apesar do tempo quente, que não sei como agüenta... Vai ver que ele próprio descobriu a semelhança que tem com o ator, e a assume por inteiro, o que não deixa de ser uma forma de ousar - penso
eu, já que tanta "queda" tenho pelos atrevimentos - não esses atrevimentos banais, por certo, mas aqueles que imprimem rotas inusitadas ao "ser", um tempero forte à
trajetória do viver. E o jovem casal conversa muito, noto que é uma conversa mutuamente agradável, eles riem muito - isso é bom para eles, acho, embora não saiba eu lá muito bem o que se passa nas cabeças dos muito jovens - pode até ser que estejam em grandes divergências, juvenis que são, sim, porque não devem ter nem vinte anos ainda, ou uns vinte-e-um se tanto - e vai-não-vai se beijam na boca, ela lança "rabos-de-olho" para nós outros, sussura qualquer coisa enquanto lhe mordisca o ouvido, que ato contínuo também nos entreolha, e mais outra vez repetem ambos os olhares, e de novo, e ainda outras vezes, acho que estranham ou, quem sabe, criticam a diferença de idade entre mim e "ELA", mas que coisa! - penso - isso de dispar-idades acontece, e afinal "é muito legal" - conforme o
linguajar dos jovens - um "coroa" acompanhado de uma mulher muito mais jovem do que ele - o ex-presidente argentino Menem tem setenta anos e namora uma ex-"miss"-chilena de trinta-e-cinco, enquanto eu ainda estou um pedação longe dos setenta, sapateando em frações cinqüentenares, e "ELA" só irá aos trinta daqui a mais de dez meses, caramba! Que até me sinto "meio-'noiado'" com isso de vez em quando que as pessoas nos
olham assim "meio-surpresas", - e o que até me faz rir é quando saio a passear com a minha filha adotiva de dezessete anos, morena-café-com-leite, e os outros e outras chegam a se escandalizar ao nos verem - é aí que a filha faz de propósito e me beija e me enlaça, apertado, pela cintura... (Eh!Eh!Eh!...) Estou nesses
divagares, "ELA" nota, adivinha (pois já bem me conhece) e me critica sorrindo baixinho do alto dos seus vinte-e-nove-anos, eu também rio não tão baixo - ah!ah!ah! - e me lembro - uma lembrança muito viva - de uns tempos de menino quando a minha mãe - que também era mais nova uns quatorze ou quinze anos do que o meu pai - me levava ao cinema nos entardeceres de meio-de-semana quando os cinemas ficam mais vazios (ou menos cheios, sei lá!), e depois tomávamos sorvetes ou chá-com-biscoitos-com-geléia-de-morango-e-suspiros-e-torradas-com-manteiga
aproveitando para olhar em redor a fazer comparações entre as pessoas das outras mesas e os atores e atrizes e figurantes do filme a que acabáramos de assistir, pois assim nos divertíamos muito, e, de alguma forma, também fazíamos cinema, acrescentndo cenas idealizadas à própria fita, talvez os produtores até tivessem rodado "tomadas" como aquelas que protagonizávamos - quem sabe? - mas sem as terem incluído na montagem definitiva do enredo. Era o que dizia minha mãe, e quem era eu, naquela época, para duvidar do que a mãe dissesse?
Mesmo porque "fertilizava" a minha mente já um bocado criativa de criança. Pois é! De criar me tenho feito eu, por inteiro e ainda não completo - graças a todos os bons deuses, nominados ao longo dos "secula-seculorum" de Zeus, Júpiter, Osíris, Jeová, Odin, Tupã, Alá, Deus único, a Quem reverencio, penhoradamente, através de um agradecidíssimo "amém"! E o mesmo "criar", estou aqui a repetir neste terraço-bar com "ELA", incluindo o jovem casal cujo rapaz muito se parece com James Dean, numa cena que não houve, ou que talvez tenha havido mas sem ser mostrada na versão final e esteja agora arquivada em algum escaninho em Hollywood, mas que, definitivamente, consta a partir de agora da "minha versão" secreta de "Assim Caminha a Humanidade", oculta que fica no anônimo de dois casais sentados um em frente ao outro a bebericar e a petiscar e a trocar sussuros e "meios-carinhos" numa noite de verão tropical e enluarada de sábado, sobre um mar de dezembro. Se tivesse sido tal cena filmada e encaixada de alguma forma no enredo mostrado nas telas dos cinemas, o filme seria mais completo, ou teria, pelo menos, uns minutinhos a mais, mas, certamente, nem o jovem casal à nossa frente e nem eu nem "ELA" não teríamos estado onde estivemos nesta noite... Entretanto, tenho de considerar que se a cena agora descrita, tivesse realmente existido, poderia se desdobrar em várias opções posteriores, até mesmo uma troca de socos entre mim e o "James Dean", e aí, quem levaria a vantagem? Pensando bem, tal cena poderia conduzir a seqüência a um outro rumo diametralmente oposto ao que se desenvolve no filme, daí por que, se tiver sido mesmo produzida, talvez tenha obrigado os produtores a eliminá-la para, digamos, evitar gastos maiores, ou, o que seria mais provável, para permanecerem fiéis ao plano original pois teriam de modificar todo o roteiro, até o título da fita iria ter de ser outro, por exemplo, "Sobre um mar de dezembro". Quem sabe se os produtores, realmente, não a rodaram e pensaram antes nesse nome para intitular a fita? Quem sabe mais se a
cena foi feita, sim, mas arquivada e assistida muitos anos depois por algum produtor dos dias de hoje que esteja, neste momento, com a respectiva idéia na cabeça?!... De conjecturas se tecem as versões da verdade!
Recife, 1998
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UM ANDAR SOBRE A CIDADE
-Harpyja-
harpyja@bol.com.br
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No cedinho da noite tive uma imensa preguiça de voltar para casa. Andei pelos caminhos mais compridos, perdido por aí em desatalhos, com uma inquieta vontade de caminhar sem rumos nem prumos. Deu-me de imaginar cascatas e vales, clareiras e bosques, e os mistérios da noite, que os senti todos nos repuxos das fontes, nas calçadas estreitas de ruas, nos arvoredos em aléias simétricas das avenidas extensas. As luzes dos postes foram as minhas estrelas, e quantas constelações me deu de brinde a cidade!
Quis sentar-me num banco de praça e ouvir o cair de águas no lago, apesar dos perigos que dizem haver - ora, também há feras na selva, e daí?
Quis andar de cabeça bem erguida, em sensos de euforia e a boca risonha.
Quis olhar vitrinas como se olham singelos ramos de rosas silvestres ou buquês de amarílis bem postas.
Quis pisar o leito das ruas com a firmeza com que se pisam as rochas das lapas, e arrastar os pés em sons do cascalho dos bosques.
Quis ouvir o rumor das ruas como o farfalhar das palmeiras e coqueiros aos ventos.
E quis ver gente, tocar e ser tocado por muitas pessoas, ainda que em breves instantes. Entrar nas multidões do anoitecer e guardar desses
roçares e toques, o tato e o cheiro dos meus semelhantes. Não me intimido com isso, me lavarei depois, ora essa!
Agora o que quero é o banho da alma, a vivência
desses tantos sentires. Pois na rua, tudo é mais fácil e simples, não preciso me identificar, ninguém quer saber quem eu seja ou o que sinto, aonde vou nem donde venho, todos passam rápidos e tagarelam, como trinados de pássaros. Sou um deles, tanto faz que novos ou velhos, adultos ou crianças, homens ou mulheres lindas e menos lindas - que inteiramente feias nunca as há, decerto... No entanto muitas me fitam quando cruzamos os nossos passares e olhares. Interrogações e ofertas, ou meros olhares?
Não me preocupei com isso neste anoitecer. Quis apenas andar e passar pelas gentes da minha cidade, iguais a tantas gentes de tantas outras vias do mundo. Cidade, cidades, "muito" cidades, onde não é preciso falar, nem cumprimentar, nem parar para conversar, para se ser cidadão, citadino. Tenho, porém, a grata certeza do sempre possível que tal aconteça, conforme o
meu querer de momento, que guardo comigo como um trunfo precioso, próprio de raríssimos usos.
Pois sou mais livre no rumor profundo das ruas, na "minha" cidade de vielas amadas, e praças e parques, onde dou preguiça aos sentidos. Onde
serpenteia o "meu" rio sereno, tão largo e enfeitado de luzes, vaidoso e lascivo, por baixo das "minhas" pontes e a beijar "minhas" ilhas, "meus" arrecifes, "meu" delta,
"meu" mar...
Recife, 24/6/2000
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CHARADA
-Harpyja-
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A vida são muitos dias, um após o outro, monótonos, alegres, agitados. Sequenciais. Gisados. Caminho através de mim próprio à procura de ladrões e anjos, velhos e jovens, o feio e o belo... Acho um pouco de todos. Sou eu, e começo a rabiscar uma papeleta, e mais outras, muitas, de várias cores, azuis, verdes, alaranjadas, brancas sem cor. Sou uma burla da vida, também. O que aprendo de mim? Ajudo-me a crer e a descrer. É como se estivesse num salão de leitores assíduos, onde de fato estou, que onde todos devoram livros avidamente em grande silêncio. Abro a esmo um "Ulisses" de Joyce deixado sobre a mesa (Por quem? Por quê?) -
"Eu raro atento num grito perto
Ou nas conversas a descoberto", etc, etc.
Apenas tento "matar" o tempo num livro aberto, a conter um "grito aberto". Levanto-me e passo por trás das costas seminuas-alvas da jovem alouradacastanha que trás uma folha de papoula natural, naturalmente, presa aos cabelos e um lapis entrelaçado nos dedos indicador e anular, a deixar o mindinho arrebitado para cima em impertinências fálicas. Som de pigarro feminino tosse-tosse ecoando entre paredes e vidraças descobertas das cortinas vermelhescuras abertas a deixar passar a luz solar compensando preciosos kilowatts.
" - Qual foi a sua atuação nesse congresso holístico?" - entreouço -
" - Aprendi que espaço é tempo" - resposta sábia que nada diz de uma pergunta que nada indaga...
Muito bem! Muito bem! E eu daqui a poucos dias vou ao Chile caminhar nos Andes e tocar enfim os olhos e os dedos no Pacífico. E daí? "Diga-lhe isso sem rodeios", algo me fala aos ouvidos. Pois bem, não digo, pois também não tenho a quem dizer. Salvo logo mais, na Internet. Por que diria agora? Silente, pensativo e alerta, deslizo cuidadosamente tenso entre mesas que são pranchas onde aquela mulher negralta e esguia, "très belle", de tão belamoça que a sua juventude é a inveja da mãe. Ela toca uma sinfonia com os olhos negros postos sobre as páginas de um livro de Física. Bela aparência de afromulher que veste um vestido decotado clarodourado a deixar entrever belos pertences bronzeados. Faria boa figura nas estepes africanas. Os canibais a comeriam acometidos de fome, de certeza. Os missionários d'África a "comeriam" acometidos de desejo, nem que fosse com mãos masturbatórias, com a mais certeza dos falsocastos. Deixo-me hipnotizar enquanto ela se inclina, enquanto o homem da mesa ao lado espia lugubremente através dos seus decotes, enquanto considero que a beleza daquela negramulher deve ser olhada em dobro, sem olhadelas furtivas, a ser dedilhada em toques sutis de dedos-termômetros a roçar-lhe a pele braseante. Arrepiada. Se não for assim, o que será dela? Fenecer, desesperançar. Mas ela respira. Retira ar e expele o hálito. De açucenas. E eu aqui, bruto macho a exalar um enxofre de cio, aprisionando espermatozóides inquietos.
Outro leve som de tosse-tosse ecoa sobre o chão recoberto de um não-sei-quê de revestimento amadeirado - deve ser mistura de sintéticos abafantes de sons, pois o teto que é de gesso, faz o mesmo efeito.
O sujeito ao lado - o dos olhares lúgubres e ávidos pela belíssima negramulher - funga a disfarçar a inclinação que dá ao corpo e quase cai a perscrutar-lhe as coxas. Pois agora ela notou e zombeteia um sorriso de leve nos lábios carnudos e me encara como a buscar cumplicidade em reprimenda ao tal sujeito, de quem captou as lubricidades, certeiramente. Mexo os lábios cúmplices num ar de sorriso assafadado. Ele se levanta e já está mais que ido, como se ali nunca tivesse entrado.
Escorrem as mornas horas vespertinas, marotas horas que se agitam nos limbos das mentes. A melhor de todas as horas amontoadas à entrada do espaço-tempo que não escorre: pára. Ela, entretanto, foi a primeira a perceber a chave da charada com um tanto de ternura compreensiva no olhar profundamente característico das mulheres negras, e que seguiu os passos do sujeito lúgubre como a dizer dele: "coitado".
Sincero "coitado". Pois até então apenas vi que eu tinha trocado olhares fortuitíssimos com ela, que se aventurava a mirar o outro sujeito, que já não mirava ninguém - acanhado, descoberto, devassado no íntimo exposto como livro aberto.
O rosto dela que fitei ali no brilho opaco da sala à tarde estava agora um pouco frisado e interrogativo a perguntar "por quê?!" - enquanto mirava o afastar do homem. Que me pareceu o rosto mais triste que jamais tivera visto. Depois, retomou a sinfonia dedilhada com os olhos profundamente negros, fixamente postos sobre um livro de Física. O mesmo livro de Física. O mesmo livro de Física. O mesmo livro de Física.
Por ora, tudo bem (...) Vou eu ao balcão dos direitos autorais da biblioteca a registrar uns meus rabiscos... Que mais iria eu fazer(?), atrapalhado subitamente com a presença ostensiva daquela estonteante deusa negra que se fincou diante de mim a exalar um certo cheiro de jasmim a lançar-me chispas de mensagens como "decifra-me e devoro-te", já que estava "pronta"!
HARPYJA
7/9/2001
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REFLEXÕES...
-Harpyja-
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TEMOS EM NÓS UMA ÁGUIA, UM LINCE, UMA RAPOSA
E MUITOS ANIMAIS RASTEJANTES.
A GRANDEZA ESTÁ EM LIBERTAR A ÁGUIA PARA ALÇAR VÔO ÀS ALTURAS INFINITAS E RESPIRAR, LIVRE, A PUREZA DOS ARES RAREFEITOS, SOB A LUZ INTENSA DO SOL E O BRILHO DAS ESTRELAS;
DEIXAR O LINCE ENXERGAR LONGE, MUITO ALÉM DOS
HORIZONTES VISÍVEIS,
ONDE SÓ A IMAGINAÇÃO ALCANÇA;
CONTROLAR A RAPOSA PARA QUE APENAS NOS DEFENDA DAS ESPERTEZAS ALHEIAS,
E MANTER PRESOS OS ANIMAIS RASTEJANTES,
MAS OBSERVANDO-OS, PARA CONHECERMOS EM NÓS MESMOS A SORDIDEZ E AS FRAQUEZAS DOS OUTROS...
Harpyja,
março de 2000
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MANHÃ DE ANIVERSÁRIO...
-Harpyja-
Não consegui ser um fantasista, pois nunca fui capaz de inventar um mundo à minha volta. Mas inventei muitos mundos dentro de mim, e a dificuldade maior é passar livremente de um para o outro. Não duvido que seja um absurdo, porém o valor que atribuí a isso convenceu-me do dever de prosseguir.
Entretanto, tento levar-me a sério. Sim. Certa noite, há algumas poucas horas passadas, depois de uma farra repleta de alcoolismo e libidinagens, acordei estremunhado a tropeçar nuns dois ou três livros deixados a esmo no chão, ao pé da cama, e no fio do telefone esticado rente ao piso. Cambaleei até a janela e a abri para um mundo nublado sobre o qual chovia. "E se nunca mais parasse de chover?" - pensei por um momento, enquanto lufadas de vento frio e úmido invadiam meus pulmões libertos, recentemente, da fumaça composta de nicotina e alcatrão que o vício do fumo me impingia. Nada mau ter deixado de fumar, embora nem tanto, pois ainda baforo uns cigarrinhos furtivos de vez em quando, mesmo que em quantidade infinitamente menor do que antes. Enfim, talvez um ou dois por dia, no máximo, às vezes nenhum, ou um charutinho após um whisky sorvido depois de um bom ato de sexo...
De repente, dou-me conta que a colcha ao meu lado esquerdo mexeu-se e vi surgir de debaixo dela a bundinha mais linda e sapeca que vi desde..., desde..., desde ontem à noite, quando a Gatona invadiu meu espaço íntimo. Seguiu-se à linda bundinha, uma coxa, uma canela, um pé. Depois a outra perna com a outra coxa, a outra canela, o outro pé. Depois, o relvado suave e triangular que esconde o paraíso de delícias que toda mulher traz entre as coxas. Depois a barriga seca e batida, e elegante, sob o tronco. E o pescoço e a cabeça a emoldurar um rosto um tanto espantado sobre o qual se desgrenhavam cabelos descaídos pelos ombros.
Aquele harmonioso conjunto humano no qual balançavam seios empinados, mais para grandes do que para pequenos, e com sensualíssimos mamilos pequeninos e rosados, pôs-se em pé e dirigiu-se à porta do quarto, depois à porta do banheiro que se fechou, deixando ouvir, apenas, um ruído característico de jato de urina a cair na água do fundo do aparelho sanitário, que os lusitanos apelidam de retrete. Depois, o som abafado da descarga e o chuá do chuveirinho da mangueirinha que serve para a higiene íntima.
Um breve instante e surge novamente esse gracioso conjunto humano a reentrar no quarto, a sorrir um sorriso maroto para mim, enquanto se deitava outra vez sob a colcha, a virar-se de frente para a parede e de costas para mim, cobrindo-se para continuar o sono. Ainda bem, pois o que mais eu precisava nesse momento era voltar a dormir, porque na noite passada não dormi nada, nada, envolvido com ela em sacanagens clandestinas de traição amorosa da qual me penitencio, ainda que inocuamente, pois o meu arrependimento nesse aspecto nunca é eficaz! Também, quem manda a Gatona rondar-me e tentar-me tanto? Essa Gatona é a pura serpente do paraíso. Que bom que assim é, que bom que assim é, que bom que assim é, penso três vezes em um único sorriso safado...
De qualquer forma ainda estou ali, de janela aberta, a respirar o ar fresco que renova o quarto, e afinal, não tenho nada a perder, pois hoje será o meu aniversário, exatamente às sete e quarenta da noite, que foi a hora em que nasci, conforme minha mãe sempre me contou.
Neste dia irei almoçar com meus filhos, receberei alguns presentes, uns tantos e quantos telegramas de felicitações e, certamente, muitos telefonemas, pois um número relativamente maior de pessoas a mais do que normalmente prevejo, acha que sou importante a ponto de merecer felicitações natalícias. O que me dá um peso de responsabilidade indesejado e desnecessário, que carrego como um fardo pesado e desajeitado. Enfim, é a vida da qual não posso desistir, e, pensando bem, nunca desistirei. Eu sou eu, com as minhas circunstâncias, que me fazem carregar pedras até enquanto descanso.
Uma lufada repentina e mais forte de vento carregando chuva faz-me fechar a janela mais que depressa. Cambaleio de volta à cama, entretanto dou-me conta de um terrível gosto assim como se mascasse um pedaço de papel pautado que tivesse servido para limpar cabos de guardachuva. Que horror! Não posso deixar de beber uns longos goles de água gelada para esfriar queimores que me assolam a garganta ressequida. E uns pingos de soro fisiológico nos olhos ardentes e ainda injetados de filetes com marcas sanguínesas.
A caminho da geladeira, supreendo-me com a visão de dois copos com restos de gelo derretido, amarelados com resquícios de "Ballantine's", ao lado de outras duas taças vazias de champanhe e o cinzeiro com um toco de charuto apagado em meio a cinzas. Tudo espalhado sobre a mesa. Ah! E também um resto de batata frita e uvas pretas num prato de porcelana branca e a tela do lap-top a mostrar meu arquivo de músicas, no qual está assinalada a "Sinfonia Titanic" interpretada por Clayderman. Nem acredito que tanto disso aqui foi criado por minhas próprias mãos auxiliadas pelas mãos dela. Engulo a água com avidez, enfim. Pingo o soro fisiológico nos olhos e volto meio tonto, ou tonto e meio, para a cama.
Neste canto do mundo, amanheço enleado por ligações amorosas dúbias. Não é o tipo de coisa que me agrada. Contudo, já não há nada que possa fazer, depois de consumados todos os rituais satânizados. E, como eu próprio diria, não estou sozinho, pois a vasta maioria dos meus pensamentos adquire a força de ser a minha companhia. Além da Gatona neste amanhecer, é claro.
Houve, então, um silêncio absoluto na minha cabeça que me fez jazer esmagado de desolação. E dou-me conta ao contrário, de que estou, sim, a considerar um monte de coisas. Se por um lado eu e a Gatona somos promíscuos e predadores sexuais um do outro, por outro há uma atração mútua de corpos que só se explicaria por um desejo irresistível de traição que nos assoma. Para isso não há defesas à vista, a não ser aquela dos avestruzes que enterram a cabeça para não ver nem conhecer o tamanho do problema. De qualquer modo, o momento fica parado, suspenso no ar, como um castiçal de vela acesa por um fogo queimante porém inconsumível. Que farei, não sei, a não ser voltar neste momento a deitar-me com ela que demonstra não ligar a mínima para nada disso. Nada posso fazer por enquanto, pois de alguma forma inconsciente, amo tudo isso...
HARPYJA
Amanhecer de 05/04/2004.
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O "CHATO" DO VIOLÃO
-Harpyja-
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Chove e venta e a chuva e o vento transformam a tarde numa "tarde tenebrosa", como já fora "tenebrosa" a noite anterior. Porque há noites e noites, como há dias e dias, pessoas e pessoas. A "tenebrosidade", hoje, está fazendo a diferença. Que fazer em noites assim? "Ora, direis", nem podereis contar estrelas... Porque estão encobertas pelas nuvens e pela chuva. E dá para imaginar se pudesse chover sem nuvens? Bom, pelo menos, se assim fosse possível, as estrelas brilhariam ampliadas em cada pingo que caísse dentro da noite. E o chão ficaria cheio de água e estrelas. Uma "chuva de cristais", um "chão de estrelas", sim, e "tu pisarias nos astros distraída", sabendo sim, que a melhor coisa da vida seria um luar e um violão, como diz mais ou menos assim, aquela famosa letra de música, acho que da autoria do carioca Lamartine.
É certo que, quanto ao violão, não sei se é uma das melhores coisas da vida, ou pelo menos, pode até ser, mas nem sempre, nem sempre! Pois não sou muito chegado àquelas reuniõezinhas onde, de repente e interrompendo às vezes uma boa conversa ou, melhor ainda, uma "abordagem" altamente promissora a alguém do sexo "oposto" (oposto?!), lá vem um "chato" qualquer que saca do violão e começa a desfiar "modinhas" para o gáudio de uns tantos saudosistas ou "traumatizados" por amores desfeitos ou "não feitos", ou pior ainda, aqueles e aquelas que reúnem em si mesmos e mesmas, todas essas "qualidades" e ainda mais outras que a essas se somam e que culminam, amiúde, com uma "pitada" de sofrida "traição" ou paixão não resolvida... E haja "violão", e haja "emborcação" de "whisky", "rum-com-cocacola", "vodka-com-laranjada" e "caipirinhas", ao que às vezes se somam expressões de "lágrimas-contidas"...
É claro que as doses de "bebericos" nada têm a ver com tais chatices - coitadas das doses, tão boas que são! Mas que sempre acabam a ser usadas como "fio-condutor" a tais "dores do mundo" - pobre Schopenhauer, ele próprio um "chato", apesar de gênio da filosofia!
Um horror, repito, sim, que se transforma em tragédia quando o "chato-do-violão" é um "chato-desafinado". Pois quer seja "afinado" ou "desafinado", eu fujo às léguas, retiro-me tão logo decorridos aqueles "minutinhos" de praxe discreta aos quais se convencionou ter como indispensáveis à salvaguarda do "bom-tom", da educação ou da elegância da retirada para não magoar o anfitrião ou a anfitrioa, correndo-se ainda o risco de ser interpretado da pior maneira possível, qual seja a de que se está a sair exatamente por conta das musiquinhas cujas letras, supostamente, soariam aos ouvidos do retirante como lembrança insuportável de alguma "dor" que lhe aflorasse ao espírito naquele momento em que ouve os sons "dolentes" extraídos das cordas do violão ou dos "trinados" emitidos pela garganta do seresteiro ou seresteira, seja ele ou ela, afinado ou não.
Mas há um detalhe importante que pode salvar tudo. Pois se a interlocutora da abordagem cheia de possibilidades futuras e que fora interrompida ao ter início a pretensa e indesejável "seresta", se levantar e também sair. Aí sim, terá sido dado o "sinal", ou mais que isso, a concordância explícita, a "afinação" ao "lero" que rolou na abordagem mútua que fora interrompida pela "chatura-serestial". É quando o "chato-do-violão", vira "santo" abençoado e adquire todas as bem-aventuranças, independente de ser ou não "afinado", embora não deixe de ser um tremendo e intrínseco "chato"... Só a atitude, ou melhor, a momentaneidade que proporcionou o sinal, a "afinação" e a concordância, é que terá adquirido a cor "azul-anil" e virado "brisa" por conta da própria concordância.
Sim, tudo isso é muito legal, exceto ele, o "chato do violão", que assim continuará "per-omnia-secula-seculorum" a encher a paciência com suas cançonetas inoportunas...
Pior ainda, quando a improvisada "seresta", se transmuda em "batucada", com aqueles "defectíveis" batuqueiros a "batucar" as mãos no tampo da mesa ou a "chocalhar" caixinhas de fósforo a querer imitar o "Ciro Monteiro". Ou outros que sacam o isqueiro, o pente, a chave do carro, para tilintá-los num copo vazio, ou - supremo horror - em dois, três, quatro ou mais copos com diferentes quantidades de bebida para produzirem "sons" diferentes ao compasso descompassado de batidas da sola do sapato no chão, coisa que se torna verdadeiramente insuportável se o chão for de assoalho ou algum estrado de madeira.
Por isso, e porque também nem sempre estou proporcionado a "abordagens" com generosas e simpáticas exemplares do "belo-sexo" - já que nem sempre as "químicas" se "afinam" - é que prefiro as estrelas que ficariam ainda mais belas se pudessem ser vistas à chuva fina, garoa, pois seria como se fossem atravessadas por um manto transparente e líquido sobre um fundo de pingos de luz presos ao céu. E ainda mais porque, certamente, quem porventura aprecie esse tipo de "reuniãozinha", me achará, sim, o maior dos "chatos", ao saber que estou no campo oposto... Que idéia!
Harpyja,
20/04/2002
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SOBRENATURALIDADES
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Imaginações às vezes assustam. Não, propriamente, que metam medo nem que tragam preocupações. Mas porque deixam perplexo a quem assustam. Por isso, assustam! Simplesmente. Pela ousada liberdade com que se insinuam na mente, assim sem nenhum pudor nem respeito ao hospedeiro.
Há pouco acordei estremunhado, imaginando amar uma deusa Inca. Como será, ou terá sido, porém, uma deusa Inca? Talvez só o soubessem os espanhóis de Hernán Cortez, que os massacraram, sabe-se lá se, exatamente, porque as conheceram, ou intuíram, e delas tomaram tamanho "susto" que resolveram lhes extinguir toda a linhagem.
Cruéis e insanos espanhóis, aqueles... Sorrio pela talvez bobagem. Mas que poderei fazer se, de repente, deusas Incas me assolam!
Sou um prisioneiro atado ao sobrenatural, talvez, ou quem sabe ao paranormal. Pois que será "sobrenatural" se não na literalidade do "sobre", ou "por cima" do "natural", embora não se possa nem mesmo definir nada que seja de "natural" ou "inatural", tal e qual tênue é a fronteira do "normal" com o "paralelo-ao-normal" que está implícito, ou melhor, aglutinado na consistência toda do que se queira chamar "paranormal". Que seja mesmo "para", ou "ao lado" deste. Pois então, se ser "ao lado" nunca seria "a-normal", mas